terça-feira, 12 de novembro de 2019


                                 Vila Maria

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Fundada em 1917, Vila Maria é um distrito localizado na Zona Norte do município de São Paulo, porém este só se desenvolveu no ano seguinte, após a construção de uma ponte de madeira sobre o Rio Tietê. Até então, quem quisesse chegar até a região precisava atravessar o rio de barco. Os bairros que compõem o distrito de Vila Maria, são: Vila Maria; Jardim Japão; Vila Maria Alta; Vila Maria Baixa; Parque Vila Maria; Parque Novo Mundo; Conjunto Promorar Vila Maria e Jardim Andaraí.

Em décadas passadas, o bairro recebeu muitos imigrantes portugueses e bolivianos, mas com o passar dos anos, começou a ser ocupado por pessoas de diferentes partes do país, principalmente das regiões Nordeste e Norte.

O bairro fica situado próximo de importantes rodovias, como a Presidente Dutra, a Ayrton Senna e a Fernão Dias, e também da Marginal Tietê que faz ligação com diversas áreas de São Paulo. A região conta com muitas empresas do ramo de logística e transporte de cargas, que usufruem da localização privilegiada dentro da cidade, e, portanto boa parte da economia do bairro é proveniente destas atividades.

O bairro também é famoso pela escola de samba Unidos de Vila Maria.

Em entrevista com os moradores do Bairro da Vila Maria, o primeiro deles trata-se de um senhor de 84 anos, hoje morador da cidade de Terra Preta, no interior de São Paulo, mas que viveu a maior parte da infância e a adolescência inteira no bairro estudado, Vila Maria. Nascido em Minas Gerais, suas recordações iniciais sobre o bairro datam da década de 40, quando o bairro era um tanto quanto precário. O entrevistado ressaltou o caos que se formava em dias de chuva, a região alagava e, como as ruas eram de terra, a locomoção e acomodações do bairro ficavam bastante prejudicadas. Este senhor só teve a oportunidade de estudar até o segundo ano, destacou a existência de somente um colégio no bairro, o João Vieira, o qual existe até hoje e é público. Hospitais e postos de saúde ainda não existiam nas redondezas, quando ele e os irmãos ficavam doentes, a mãe tinha de buscar remédio na região próxima ao Belenzinho. Contudo, não tinham muitas opções de remédios, a variação era bastante restrita.

                                                Ponte de madeira

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A ponte da Vila Maria, que ainda existe e dá acesso ao bairro do Belém, era de madeira, e o bonde passava sobre ela rumo ao centro da cidade. Poucos eram os meios de transporte disponíveis, as pessoas andavam de bonde, de ônibus (chamado popularmente de poeirinha, por conta da sujeira dentro deles) ou a pé.

Outra diferença notória era a quantidade de descampados e matagais, chamados de “capoeiras” pelo entrevistado. Conforme dito por ele “Não era grande o número de casas, por todo lado era mato ou brejo, e a gente pescava lambari no Rio Tietê” o que representa um grande impacto natural que foi a destruição do Rio Tietê. Depois de 70 anos já não há possibilidade de vida neste grande Rio que corta a cidade de São Paulo.

                             Igreja Nossa Senhora da Candelária

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Como entretenimento, o entrevistado informou que havia um cinema chamado “Cine Candelária” que recebia a visita de importantes nomes da mídia atual, como Silvio Santos e Raul Gil. Candelária é uma grande igreja católica do bairro que, atualmente, dá nome a comércios, escolas e é ponto de referência como também era antigamente. Pelo que podemos notar a influência da igreja já era grande na época, visto que o cinema carregava seu nome.

Outro fato de relevância destacado pelo locutor é a grande quantidade de portugueses que moravam no bairro. Ele e a maioria de seus amigos eram de classe social inferior e, segundo o senhor entrevistado, quem tinha maior ascensão financeira eram os portugueses, normalmente donos de padarias. O bairro da Vila Maria recebeu bastante influência dos governantes Jânio Quadros e Ademar de Barros. Sob o cuidado dedicado ao bairro por parte destes políticos, o entrevistado alega que o bairro começou a prosperar.

Identifiquei certa tristeza por parte do locutor ao falar de sua infância na Vila Maria. Ele afirmou que se hoje achamos algo ruim, que não imaginamos como era difícil viver naquela época.



Como segundo locutor, entrevistamos uma mulher de 77 anos que nasceu no bairro, apesar de ter o pai húngaro e a mãe nascida na antiga Iugoslávia, retratando o caráter da grande presença de imigrantes no Brasil e consequente miscigenação cultural. Suas primeiras memórias datam da década de 50, quando as ruas ainda eram de terra. Concluiu somente o primário, chegando ao quarto ano. Não existiam muitas escolas no bairro, naquela época as famílias preocupavam-se com o sustento e as crianças começavam a trabalhar precocemente para ajudar em casa. Como primeiro contato com o colégio, ela estudou em uma pequena escola de madeira, construída ao lado de uma bica d’água, onde muitas pessoas iam também para buscar água, já que ainda não existia saneamento básico no local. Depois partiu para um colégio localizado dentro do terreno da Igreja Candelária e concluiu o primário no colégio João Vieira. Os colégios já eram escassos, sendo particulares era mais difícil ainda de se encontrar. Na época havia somente um colégio privado nas redondezas, um colégio católico conhecido como SION. A locutora informou que seu pai lhe deu a opção de continuar estudando ou decidir trabalhar (com costuras, por exemplo) mas como filha, ela sabia das necessidades da família e preferiu trabalhar. Identificamos um posicionamento diferenciado por parte do pai da entrevistada, visto que, dentro do conceito de sociedade patriarcal que a população vivia na época, dificilmente um pai daria à filha, mulher, o direito de escolher entre estudar ou trabalhar.

Segundo a entrevistada, muitos portugueses habitavam a Vila Maria, inclusive, havia uma casa que pertenceu ao Dom Pedro Primeiro e que, segundo especulações (que futuramente foram descartadas) ele utilizava para encontrar a Marquesa de Santos.

Nas noites de domingo, os jovens encontravam-se na Avenida Guilherme Cotching, uma conhecida avenida do bairro, para o chamado “foot”, uma espécie de ponto de encontro para confraternizar e flertar. No meio da avenida era colocada uma TV em que passavam comemorações de 7 de setembro, jogos de futebol entre outros entretenimentos.

A entrevistada demonstrou um tom saudoso ao tratar desta época de sua vida, tanto do bairro antigo quanto dos entes queridos que já partiram.
Nossa terceira e última entrevistada é uma mulher de 61 anos, que também nasceu no bairro da Vila Maria. Nesta entrevista retrataremos o bairro do final da década de 60 e início de 70. No que se refere às escolas da região, pudemos identificar maior número de colégios públicos, ela citou três que eram localizados próximos a sua residência, Escola Estadual Imperatriz Leopoldina, Dona Jenny Klabin Segall e Escola Estadual Júlio Maya. Ela estudou inicialmente no colégio popularmente conhecido como Imperatriz e, posteriormente, continuou sua formação no Klabin Segall. Relatou um caso que ocorreu no Klabin Segall que foi bastante impactante para a sociedade da época. Um garoto estava agredindo às meninas do colégio com um estilete. Normalmente utilizava o objeto cortante para perfurar as nádegas das garotas quando em movimento, e isso deixou as alunas e os respectivos pais bastante preocupados. Muitas moças deixaram o estudo por receio de serem as próximas atacadas, outras tiveram grande incidência de falta e, quando iam, procuravam andar em grupos grandes para evitar que fossem pegas desprevenidas. O motivo e a identidade do agressor nunca tomaram conhecimento público. Este caráter agressivo mostra que, já naquela época, as mulheres não se sentiam seguras, pois acabavam por ser alvo de uma agressão desmotivada e que poderia ser até mesmo tratada como brincadeira pelo agressor. O fato de não terem descoberto o autor das agressões agravou o sentimento de impunidade diante de uma atitude tão desrespeitosa com as mulheres. Mais tarde, o colégio Jenny Klabin Segall fechou. Quanto aos colégios particulares, na Vila Maria ainda existia somente o SION, e no Parque Edu Chaves, bairro vizinho, uma nova escola estava sendo inaugurada, Externato São Judas Tadeu.

        Centro Educacional e Esportivo Thomaz Mazzoni

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Segundo os relatos da locutora, a Vila Maria começou a ser asfaltada em 1968, inclusive a ponte da Vila Maria que passou a ser de Concreto e não mais de madeira. Havia hospitais no bairro e para ela foi um prazer assistir ao progresso chegando à vizinhança. Junto com o asfaltamento foi inaugurado o Centro Educacional e Esportivo Thomaz Mazzoni, onde os alunos passaram a praticar as aulas de educação física, aulas de diversas modalidades esportivas eram oferecidas gratuitamente, as apresentações aconteciam no ginásio do clube e o espaço acabou por tornar-se um ponto de encontro para a juventude. Havia também o Cine Singapura como fonte cultural e de entretenimento. A Biblioteca Álvares de Azevedo já havia sido fundada em 1956, mas foi muito utilizada pela entrevistada para seus trabalhos estudantis. Apesar de o acesso à informação ser muito maior nos dias atuais do que antigamente, ela ressaltou o caráter humano da biblioteca, o encontro dos estudantes para elaboração de pesquisas, o auxílio das bibliotecárias. Ela alegou ser “bonito de se ver” os jovens em busca do conhecimento.

                      Biblioteca Álvares de Azevedo

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Quanto ao poder aquisitivo, a sociedade desse período trazia uma mescla social maior. Os colegas da entrevistada pertenciam à diversos níveis sociais, e estudar em escola pública não era um problema para os de poder aquisitivo superior. Entretanto, a maior parte dos alunos ainda pertencia à classe baixa.

A entrevistada ficou muito feliz de participar da entrevista, ela resgatou memórias queridas e de ótimos momentos.




Diante das pesquisas efetuadas, notamos que o bairro da Vila Maria mudou muito. Hoje, em 2019, o bairro abriga uma população diversa, parte dela composta por imigrantes, principalmente bolivianos e os portugueses, que ainda habitam a região. Também recebemos imigrantes nordestinos. Essa gama imigratória está relacionada ao fato de São Paulo ser um grande Centro econômico, isso traz para o estado e, consequentemente seus bairros, um grande fluxo de pessoas.

No que se refere às escolas, o bairro abriga muitas, públicas e particulares. Como atrativos culturais, a região tem o Parque do Trote e um pequeno pavilhão de exposições ao lado, onde ocorrem festas e apresentações de diversas manifestações artísticas. A presença de um grande número de Igrejas Católicas traz uma sequência de quermesses nas épocas das festividades juninas. Sem falar da escola de samba do bairro, a famosa Unidos de Vila Maria, o que faz com que famosos venham até a quadra para promover e participar dos sambas que lá ocorrem. Na época do Carnaval, a população do bairro se anima e entra no clima da torcida para que a escola seja a vitoriosa. A Vila Maria é um bairro de fácil acesso às demais regiões da cidade, é uma das facilidades de se morar na redondeza.

Dar voz à população mais antiga, aos moradores que presenciaram a construção e evolução da nossa cidade, proporciona um contato com as nossas origens, e nada mais importante do que conhecer e compreender o passado para construir um futuro próspero.


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Integrantes do grupo:

Amabile Castilho Rodrigues – R.A D343JI-0
Erica Ferreira Vitor – R.A D25HBE-0
Felipe Freire de Souza – R.A D3495J-4
Larissa Santos Alves – R.A N169192
Osmario Antônio Alves – RA. D303HD-3